quarta-feira, julho 8, 2020

Sete pecados capitais e inteligência emocional no ambiente de trabalho – Parte 1

O QI (Quociente Intelectual) ou a popularmente conhecida Inteligência, junto com a capacidade técnica dos profissionais, já teve seus dias de glória, como a mercadoria mais procurada pelas empresas. Dos anos 90 para cá, a outra inteligência – a emocional – ou sua medida: Quociente Emocional passou a dominar as entrevistas e avaliações de candidatos a processos seletivos e os assessments internos para decisões sobre sucessão gerencial, dentre outras.

O “cabeção” do tipo do Sheldon do seriado Big-Bang Theory que pode brilhar no meio acadêmico, cercado de prima-donas similares, começou a perder espaço no mundo corporativo, especialmente para ocupar posições de liderança.

Como preconizado no livro de Peter Cairo, David Dotlich e Stephen Rhinesmith, “Head, Heart and Guts”, o mundo corporativo busca e paga o peso em ouro de “Líderes Integrais” – que combinam a inteligência “cerebral” para estabelecer o propósito e visão para sua organização, a inteligência emocional, do Coração, para poder gerir as emoções próprias e dos outros e a capacidade de agir com senso de urgência e coragem, balizado por valores éticos. Os líderes “parciais” já não conseguem responder à altura às demandas de uma era cheia de paradoxos, complexidade, volatilidade e imprevisibilidade como a que vivemos nos dias de hoje.

Se compararmos apenas as habilidades cognitivas com as competências emocionais, as pesquisas indicam que apenas 1/3 das diferenças entre o desempenho mediano e a alta performance é explicada pela habilidade cognitiva ou inteligência. Quando falamos em desempenho de liderança então, cerca de 4/5 do diferencial de um líder de alta performance, em relação a seus colegas medianos, depende de suas competências emocionais.

Quais são as vantagens de termos pessoas com alto quociente emocional?

São pessoas que conseguem perceber rapidamente o que os outros estão sentindo e entender por que estão agindo de certa maneira, para poder ajustar seu próprio comportamento. São pessoas que raramente vemos de mau-humor – com quem é bom se relacionar. São pessoas que mantêm a calma em situações de pressão e estresse quando outras pessoas estão se descabelando. São pessoas emocionalmente resilientes, ou seja, que se mantêm otimistas e entusiasmadas mesmo quando encontram obstáculos. Quem não gosta de conviver com pessoas assim?

Mas se nem todo mundo é emocionalmente competente, onde é que “pecam” os profissionais inteligentes por serem “ignorantes emocionais”? Se explorarmos os sete pecados capitais, talvez encontremos alguns paralelos interessantes.

Nossa competência emocional depende de como fazemos três coisas: como é nosso “radar emocional” para percebermos as nossas emoções e as dos outros, o quão bem controlamos nossas emoções e influenciamos as dos outros e o quanto somos capazes de compartilhar as emoções.

Primeiro pecado: ‘o vaidoso que se tem certeza’

Um dos pecados capitais mais presentes nos dias “selfie” de hoje é a Vaidade que se associa à arrogância, soberba ou narcisismo – é fruto de um orgulho e autoconfiança excessivos, muitas vezes não acompanhados de uma competência proporcional. E o que falta ao nosso vaidoso das mídias sociais e das rodas profissionais – o autoconhecimento – é uma das competências que se destacam em pesquisas sobre altos-potenciais tão caçados no mercado de trabalho. A capacidade de reconhecerem seus pontos fortes e vulnerabilidades, de saberem a impressão que estão causando nos outros, saberem a hora de falar e a hora de ficar calado é reflexo dessa que pode ser a causa raiz do sucesso ou fracasso da competência emocional. Quando a pessoa não se desloca do seu maravilhoso mundo do “eu sou o máximo”, ou seja, quando não lhe cai a ficha (atualizando ao mundo digital de hoje: quando ele não passa o cartão…) ele poderá descobrir que não apenas de pecados vãos vivem os profissionais de sucesso.

Tive uma experiência com um executivo de vendas com as melhores credenciais do mercado que, recém-ingresso na empresa onde eu chefiei a área de RH, rapidamente foi sendo alvo de comentários, inicialmente cautelosos de colegas – tudo ele sabia, tudo já tinha feito e melhor. Se alguém comentava sobre um passeio em um barco de pesca no rio Paraná, ele sacava seu último cruzeiro pelo Caribe, se alguém comentava sobre o atingimento de uma meta importante, ele disparava o prêmio internacional pelo recorde de vendas, além de vangloriar-se de tudo de maravilhoso que havia na empresa anterior, e assim por diante.

Logo, em reuniões de vendas, as pessoas começavam a desviar e fugir do novato, alguns com boa vontade ainda tentavam ajudar em sua integração. Em pouco mais dos 90 dias de experiência, a situação foi ficando insustentável e assim, o VP da área de vendas e eu, chamamos nosso astro para um bate-papo. Não precisou muito para, depois de ouvir os relatos como os exemplificados acima, nosso personagem disparou: “Então, quer dizer que eu sou um chato!?” ao que não pudemos negar. Aliás, um “insight” desse porte merecia celebração. Felizmente, comemoramos também a conversão do nosso pecador da vaidade que teve anos subsequentes de muito sucesso.

Infelizmente, porém, esse final feliz não acontece a todos os pecadores. Enquanto os resultados da empresa, que ajuda a conquistar, se sustentam, sua vaidade, soberba e arrogância são toleradas, mas mesmo sem sua culpa, quando os planos já não se realizam, a incômoda vaidade aparece no cenário e já não se quer conviver com o narciso.

O antídoto para este pecado capital, desde suas origens religiosas, é a virtude da humildade e o ingrediente essencial para sua fórmula, o autoconhecimento ou a autopercepção — sabermos reconhecer em nós mesmos nossas limitações, buscando e recebendo positivamente os “feedbacks” sobre o impacto que estamos causando e acreditarmos honestamente que sempre temos oportunidade de sermos melhores em todos aspectos.

Radar social

Outro ingrediente da fórmula da inteligência emocional no campo da percepção é o “radar social”. A pessoa de alta inteligência emocional parece conseguir ler bem as pessoas, observa as dicas verbais e as não verbais (como expressões faciais, gestos e posturas) e tem sensibilidade para perceber suas intenções, quando precisam de ajuda, permitindo que aja de forma coerente e inteligente. Para que funcione conforme a bula, a heteropercepção ou seja, a sensibilidade para perceber o outro depende, primeiro, de eu tirar o foco sobre mim mesmo. Se ficamos focados demais não apenas naquela grandeza vaidosa como também nas dúvidas pessoais e autocríticas ferrenhas, vai ser muito difícil, me conectar com o outro. Novamente, a humildade é crucial para desligarmos (um pouquinho) nosso ego para conhecer as outras pessoas. A humildade nos permite reconhecer nossas limitações, apreciar e reconhecer as contribuições dos outros e, muito importante, aprender com eles.

Não perca no próximo post a continuação desse artigo com a sequência da análise dos pecados capitais e a inteligência emocional no ambiente de trabalho.

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