segunda-feira, agosto 8, 2022

Profissionais migram para o mercado de tecnologia em busca de oportunidades, maiores salários e estabilidade

Pesquisa Digital Skills mostra que seis a cada 10 profissionais digitais não começaram sua carreira atuando na função que ocupam hoje

É cada vez mais comum ver profissionais que estão em transição de carreira. Os motivos vão desde a insatisfação com a área de formação, à escassez de vagas e até mesmo pela vontade de garantir um lugar no mercado das profissões do futuro. A tendência é evidenciada pelo relatório do World Economic Forum, que estima que, em 2022, 54% de todos os funcionários vão precisar de uma requalificação significativa. Junto a ele, a pesquisa Digital Skills, realizada pela edtech Tera, em parceria com a Mindminers, mostra que, no Brasil, seis a cada 10 profissionais digitais não começaram a carreira atuando na função que ocupam hoje.

“Na maioria das vezes, a primeira escolha profissional acontece quando ainda se é muito jovem, e é comum amadurecer, conhecer outras possibilidades e querer mudar. Isso pode acontecer no meio do primeiro curso de graduação ou até mesmo após anos ou décadas atuando na área”, diz Tomás Ferrari, CEO e fundador da GeekHunter, startup de recrutamento especializada na contratação de profissionais de tecnologia. Segundo ele, há dois formatos para passar por uma transição de carreira: o upskilling e o reskilling. “O primeiro visa ensinar a um trabalhador novas competências para otimizar seu desempenho, adicionando mais profundidade e proficiência em competências que a pessoa já possui. O último, também conhecido como reciclagem profissional, é quando a pessoa aprende novas competências para mudar de carreira, seja dentro ou fora da sua empresa atual”, explica.

Foi o que aconteceu com Isabela Maltez, jornalista que atuou mais de sete anos na produção de conteúdo digital e hoje ocupa o cargo de Product Manager no Itaú. “Apesar de eu adorar o que eu fazia, o desemprego que me atingiu junto à pandemia me fez enxergar que um novo desafio profissional era uma urgência”, conta Maltez. Depois de cinco meses desempregada, ainda em 2020, se inscreveu no curso Digital Product Leadership da Tera, startup de educação para economia digital. Ao todo, foram 12 meses estudando até ser realocada, entre aprendizados independentes e o bootcamp de três meses da edtech. Em abril de 2021, conseguiu sua primeira oportunidade na área, como Associate Product Manager. Depois de 10 meses no cargo, assumiu a atual cadeira de Product Manager no maior banco brasileiro.

Agora, Isabela compartilha algumas certezas sobre transição de carreira, como nunca ser tarde para recomeçar e não existir momento certo para fazê-la. “Nunca achamos que estamos suficientemente prontos e se apoiar na falsa ideia do ‘momento ideal’ é um tiro dolorido no pé”, afirma. Ela aconselha àquelas que querem seguir esse caminho a ouvir pessoas que tiveram experiências parecidas e a saberem não só o que querem, mas também o que não desejam. “Isso encurta muito o caminho. Foi entre leituras e conversas que entendi que existiam diferentes papéis dentro da área de produto e que muito do que vivi no passado também viveria nessa nova área”, diz.

Já a Beatriz Moraes, formada em Gastronomia desde 2014, trabalhou na área de alimentação como confeiteira, auxiliar administrativa e consultora gastronômica. Depois de seis anos no setor, a falta de uma maior estabilidade na carreira a fez olhar para o mercado de tecnologia. “Recebi a oportunidade de trabalhar como terceirizada em uma multinacional e lá compreendi como as empresas estavam lidando com tecnologia. Entrei em contato com diferentes conceitos digitais e senti que aquele era o caminho que deveria tomar. Até então, minha noção de trabalhar com tecnologia era limitada a escrever código de programação o dia todo, e não era o que eu queria”, conta.

Beatriz fez parte da primeira turma do curso de Data Analytics da Tera em 2021 após conversar com pessoas que fizeram transições tão drásticas quanto a que faria e que tiveram recolocação no mercado em poucos meses. “Apesar de ter visto o dia a dia do trabalho em primeira mão, relutei em trocar de área. Sentia que se eu decidisse pela transição de carreira estaria jogando fora todo o tempo e dinheiro investido na minha primeira escolha”, conta.

Segundo Leandro Herrera, CEO e fundador da Tera, a transição de carreira apresenta desafios reais, mas também é envolta de pré-conceitos. “A área de tecnologia não é uma coisa só, ela se ramifica em diversas atuações, e estamos caminhando para um mercado de profissões híbridas, em que a maioria das posições tem uma camada de conhecimento em tecnologia”, explica. “Identificar quais dos ramos você tem mais afinidade, seja porque você já desenvolveu uma base ou não, é o primeiro passo. Se você já conta com um background, a realocação se torna mais simples. Por exemplo, no caso de um Designer Gráfico que procura se realocar para Product Design ou UX Design, já há uma base de conhecimento relevante para acessar de forma mais rápida o ramo de escolha”, detalha.

Depois de cinco anos trabalhando como bibliotecária, Jessyka Nicodemos, de 26 anos, começou a perceber as similaridades  que sua formação compartilhava com UX Design. Conta, inclusive, que os primeiros UX Designers eram bibliotecários e da área de Ciência da Informação. “Fui trabalhar na biblioteca de uma escola e não me adaptei, então pensei em migrar de carreira e fui atrás de pesquisar sobre novas profissões”, conta. Depois de um hackathon e alguns meses de cursos especializantes conciliados com sua atuação como bibliotecária, Jessyka foi contratada como UX Designer Júnior na Taric, startup da healthtech Zitrus, empresa de tecnologia que desenvolve softwares de gestão para operadoras de planos de saúde. “Para aqueles que querem trocar de área, meu conselho é ter coragem. Sei que é muito difícil dar esse primeiro passo, mas é muito libertador. Hoje, percebo que não perdi meus conhecimentos, eles só estão sendo renovados ou aprimorados”, reforça Jessyka.

Em alguns casos, a transição de carreira pode ser ainda mais brusca, em razão da insatisfação com a valorização na antiga profissão. É o caso de Ana Laura Schaefer Fachini, de 24 anos, que também integra a startup Taric. Depois de trabalhar sete anos como professora de educação infantil, resolveu trocar a sala de aula pelos códigos de programação. A motivação para a mudança veio com a frustração com a área na qual atuava, além de muito apoio de diversas pessoas próximas. Então, começou com cursos gratuitos e, em agosto de 2021, iniciou a graduação de Engenharia de Software. Cerca de um mês depois, foi contratada como estagiária na área de desenvolvimento de Front-end, em que atua hoje. “Eu venho de uma carreira na qual eu cheguei a tomar antidepressivos. A área de tecnologia é muito mais valorizada, sem falar no mercado de trabalho, que é cada vez mais amplo e permite o home office“, conta. Com o trabalho remoto, Ana conseguiu mudar-se para uma cidade do interior com pouco mais de 11 mil habitantes.

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