domingo, outubro 25, 2020

Os benefícios científicos da divagação mental

Você se sente distraído? Sofre de sobrecarga de informações? Você já deve ter ouvido mais de uma vez que precisava “manter o foco” e parar de uma vez de “viajar nos pensamentos”. Para lidar com isso, algumas pessoas tentam promover períodos sabáticos fora das redes sociais, “desintoxicações” digitais, ou retiros espirituais. Outros tentam ioga, mais atenção, e meditação. A suposição geralmente é a de que uma mente inquieta é uma mente perturbada, e, a menos que possamos cortar as distrações e manter o foco, seremos infelizes. Mas isso pode não ser verdade, e mesmo que seja, pode não ser possível de se conquistar.

A distração chegou para ficar

Para muitos de nós, nossas vidas sociais e profissionais consistem em passar horas em frente a uma tela, processando vastas quantidades de informação em pouquíssimo tempo. Inevitavelmente, isso significa racionar nossa atenção e proteger nossos pensamentos. Podemos condenar os malefícios de sermos multitarefa, mas o fato é que essa já é a norma cognitiva. Nossas mentes estão simultaneamente em todo e nenhum lugar, presente e ausente, ligada e desligada.

E mais, nossos padrões de foco típicos são ditados por nossas personalidades. Alguns de nós preferem devotar todos os recursos mentais a uma única tarefa de cada vez, enquanto outros estão mais inclinados a ter pensamentos e ideias “espalhadas”, pulando de uma para a outra repetidas vezes. Tentar mudar isso significa ir contra nossa natureza individual – consome tempo e a probabilidade de sucesso a longo prazo costuma ser pequena.

O lado bom de perder o foco

Por outro lado, cientistas atualmente estão descobrindo importantes vantagens de ser menos focado mentalmente. Na verdade, a divagação mental – a tendência de ter pensamentos não relacionados a qualquer tarefa em execução – é exatamente o oposto da atenção redobrada, de ficar totalmente imerso em uma situação e absorvido em um assunto.

Ainda assim, um modo mental é potencialmente tão benéfico quanto o outro. Estudos mostram que a maioria das pessoas passa tanto tempo divagando quanto focando no que está de fato acontecendo. Se divagar é na verdade o principal recurso do pensamento humano, é difícil chamar o ato de “bom” ou “ruim”.

Além disso, divagar é o produto de duas importantes capacidades mentais: a habilidade de se desligar da percepção (ignorar algo que está presente), e a habilidade de se engajar na “meta-consciência” (focar em seus próprios pensamentos). Pessoas que exercitam ambas capacidades regularmente tendem a ter uma mente mais inquieta, o que a pesquisa mostrou estar ligado à criatividade.

Divagando ao redor da criatividade

Divagadores crônicos não costumam ser bons em filtrar informações irrelevantes – uma habilidade conhecida como “inibição latente”. Mas isso na verdade é uma vantagem quando se trata de gerar ideias originais e inovadores. Para pensar do lado de fora da caixa é preciso poder considerar pensamentos e concepções incomuns, não suprimi-los. Afinal, os ingredientes da criatividade – de uma perspectiva estritamente racional – são geralmente errados e absurdos, mas o pensamento lógico dificilmente é a saída para a criatividade.

Isso acontece porque a razão lógica exige “pensamento convergente”, encontrar uma única resposta para melhor definir um problema, enquanto a criatividade exige um “pensamento divergente”, chegar a uma série de potenciais respostas para um problema mal definido. Divagar está relacionado a altos níveis de pensamento divergente e abertura à experiência, dois traços comuns de pessoas altamente criativas.

Apesar de algumas pessoas serem mais inclinadas a divagar que outras, o hábito parece ter um papel importante no pensamento criativo por si só, independente de nossas personalidades.

Divagação e melancolia

Apesar de a pesquisa ter relacionado a divagação a emoções indesejáveis, ela provavelmente é melhor entendida como consequência, e não causa, de emoções negativas. Não é a divagação que torna o indivíduo infeliz, mas, quando ele está infeliz, a mente tende a divagar mais. No entanto, tentar evitar essas emoções pode prejudicar a criatividade.

A melancolia e a neurose tendem a gerar alguns dos materiais para o pensamento inovador e original. Em termos muito gerais, no mínimo, pessoas felizes costumam ser menos voltadas à criação, então, algumas vezes há uma troca entre se sentir bem e produzir algo original, inovador, ou valioso para os outros. De fato, a história está repleta de conquistas artísticas e científicas impressionantes de pessoas bastante insatisfeitas – que deixaram suas mentes divagarem.

Com Fast Company

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