terça-feira, julho 7, 2020

Como enxergar além do fascínio de líderes carismáticos?

Por Dr. Tomas Chamorro Premuzic para Fast Company

Carisma tem prevalecido como uma das atitudes mais celebradas da liderança. Uma pesquisa global que avaliou as percepções diárias sobre liderança em 62 países identificou “carismático” e “inspirador” como os dois atributos mais frequentemente relacionados à liderança.  De fato, quando perguntadas sobre bons líderes, a maioria das pessoas lembra de líderes carismáticos, e depois de décadas de penetração da mídia em mundos tão diversos como esportes, política e negócios, estamos habituados à ideia de que líderes são inúteis se não tiverem carisma.

Entretanto, ainda há poucas evidências de que o carisma ajude líderes a serem mais eficientes. Pelo contrário, essa característica frequentemente tem efeito inverso porque ajuda líderes a enganarem e manipularem seus seguidores, mascarando sua própria incompetência. De um ponto de vista psicológico, a liderança é, a princípio, um processo de influência, mas não há benefício real para os seguidores em serem fortemente influenciados por alguém ignorante. Então, quando líderes são carismáticos, mas não têm bom julgamento, visão ou habilidade para construir times eficientes, eles podem ser muito destrutivos. É como dar uma arma carregada a um idiota.

Também é claro que o carisma tem um lado sombra e quanto maior o poder de influência de um líder, mais tóxico esse lado pode ser. Há uma ligação forte entre carisma e narcisismo, um traço sombrio de personalidade associado a “um senso de auto importância e grandeza, preocupação com o sucesso e poder, e uma confiança suprema nas próprias habilidades e inteligência”. Essa associação explica porque líderes carismáticos são frequentemente arrogantes –  tente pensar em um que não seja.

Embora essas características sejam sedutoras, as vantagens pessoais que elas conferem aos líderes – ajudando-os a progredirem em suas carreiras – trazem um alto custo para as empresas, que a longo prazo sairiam melhor com líderes humildes e autocríticos. Portanto, é inexplicável que grande parte do mundo dos negócios – supostamente um ambiente racional – recompense os líderes narcisistas com altos salários.

Décadas de pesquisa acadêmica têm mostrado que testes do lado sombra de personalidade podem prever o efeito que líderes carismáticos têm em seus subordinados e nos negócios. Em uma síntese impressionante de 256 estudos, vários traços do lado sombra que sustentam o carisma – arrogante, ardiloso, melodramático e imaginativo – foram negativamente correlacionados à confiança na gestão, engajamento dos funcionários e habilidades sociais.

Embora níveis moderados de narcisismo possam ser benéficos, níveis mais elevados podem ser associados ao descarrilamento da liderança. Essas descobertas têm sido replicadas nos esportes profissionais, nas forças armadas, nos negócios e claro, na política.

Não surpreendentemente, é muito fácil apresentar uma longa lista de líderes do sexo masculino que fracassaram e basearam-se praticamente no carisma, enquanto é mais difícil lembrar-se de mulheres na mesma situação. Isso acontece porque mulheres são tipicamente escolhidas para posições de liderança como resultado de outros fatores além do carisma.

Equiparar o carisma com uma boa liderança exacerba o sexismo, porque homens são muito mais propensos a serem considerados carismáticos do que mulheres. Embora o carisma esteja no olho do observador, tais percepções são fortemente influenciadas pelo sexo biológico do líder. A percepção de talento para a liderança que as pessoas têm geralmente é pouco associada às suas reais competências. Por exemplo: homens costumam ser mais vistos como potenciais líderes, apesar de estudos sugerirem o contrário.

Então, como resistir a esse culto ao carisma? Seguem algumas sugestões:

  1. Não confiar nos instintos

Isso se aplica tanto aos tomadores de decisão quanto aos subordinados. Se você está avaliando potenciais candidatos para um cargo de liderança, lembre-se de que os métodos mais intuitivos e aparentemente efetivos são, em grande parte, inadequados para julgar as competências de uma pessoa. Narcisistas e psicopatas podem se sair muito bem em entrevistas, pois têm carisma. Da mesma maneira, se você procura alguém para seguir, procure se concentrar na substância e não no estilo.

  1. Procure por características femininas de personalidade

Altruísmo, sociabilidade, inteligência emocional e sensibilidade interpessoal podem suavizar todos os efeitos destrutivos da liderança. Da mesma forma, a ausência de traços masculinos como agressividade, excesso de confiança e capacidade de assumir riscos, aumentará a probabilidade do líder de cuidar da equipe. Em resumo, em vez de encorajarmos mulheres a liderarem como homens, teríamos benefícios enormes ao conseguir que homens liderassem mais como mulheres.

  1. Ignore o sensacionalismo

Nós precisamos entender que a única maneira objetiva de avaliar o desempenho dos líderes é examinar o efeito que eles têm sobre sua equipe e seguidores. Quem se importa se eles atraem milhões de fãs nas mídias sociais ou monopolizam as capas de revista? A questão é se eles são capazes de construir times de alta performance e, em um nível social, se podem promover um impacto cultural positivo e melhorarem as condições de vida das pessoas.

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