Início Gestão de RH Bem-vindo a bordo ou salve-se quem puder

Bem-vindo a bordo ou salve-se quem puder

0
1291

Por Roberto Santos

Parodiando aquele famoso comercial da Década de 80 sobre sutiãs, os primeiros dias em um novo emprego, a gente nunca se esquece. E, infelizmente, para a maioria das pessoas, a experiência não costuma ser inesquecível por boas razões. Por melhor que seja a embarcação, subir a bordo sempre traz inseguranças e dúvidas sobre se poderemos contar com a tripulação para atingirmos nosso destino sãos e salvos.

Já se comprovou em pesquisas que muitas vagas que levaram meses para serem preenchidas, depois de encontrado o candidato que se crê ideal, desocupam-se novamente nos primeiros sete meses de serviço. A causa mais provável desse acidente de percurso e desperdício de investimento em recrutamento e seleção é a escassa atenção à integração dos novos tripulantes.

Enganam-se os gestores de RH, com a ilusão de que findo o demorado e árduo processo de contratação, tudo conspirará a favor da pronta adaptação do estranho no barco. Engana-se o novo colaborador que se via como visitante e agora passa a integrar a tripulação, com altas expectativas da parte de todos, achando que todos os colegas e chefes estarão dedicados a facilitar seu período de aculturação e treinamento.

Batalhas inglórias de alguns heróis e heroínas de Recursos Humanos que entra década e sai outra, tentam viabilizar um processo de integração de novos funcionários que facilite a vida do marinheiro mais novo e a retenção de seu talento. As famosas “palestras de integração” em audiovisuais modestos com os quase extintos slides do início de minha carreira, passaram para vídeos, DVDs e chegaram à intranet globalizada em altas produções, movidas a tecnologias interativas sofisticadas.

Ainda assim, os fracassos dessas iniciativas se sucedem nas empresas – prioriza-se a cascata de informações e se esquece do apoio e engajamento humanos. Planos mirabolantes e complexos de padrinhos, tutores e mentores são criados pelas organizações que também acabam morrendo na praia em muitos casos.

O novo tripulante precisa, sem dúvida, saber da história e das dimensões da nau que o embarcou; ajuda, de fato, saber das atrações especiais e onde fica o salva-vidas, para casos de emergências. No entanto, são as sutilezas da cultura, aquelas não escritas nos manuais de operação daquele equipamento que podem ser subestimadas por ambas as partes. O chefe de cada departamento e seus subordinados diretos são os responsáveis pelo processo de garantir uma abordagem e uma viagem prazerosa e produtiva para todos.

Então, o que é que cabe a cada parte envolvida nesse processo – comandante e tripulação de um lado e o novo colaborador de outro?

Comandante e equipe

Uma das missões indelegáveis de um gestor é a responsabilidade (ainda que “terceirize” certas tarefas desse processo) pela facilitação do processo de integração de um novo membro na equipe e isso inclui, pelo menos:

  • Rever com o novo contratado suas atribuições de cargo, incluindo os indicadores de desempenho bem-sucedido, as prioridades para os seis primeiros meses e as interfaces de clientes e fornecedores internos para realização de seu trabalho;
  • Apresentar os novos colegas (que idealmente deveriam ter sido envolvidos na fase final de seleção…) e provocar trocas de expectativas e contribuições potenciais de ambos os lados para um “contrato relacional” eficaz ajuda a limpar canais de comunicação ainda no começo da relação. Como sabemos, discutir a relação mais tarde é sempre mais trabalhoso e frustrante;
  • Fazer um “check-list” sobre as regras, procedimentos, políticas, benefícios, etc que poderão ser cobrados e/ou usufruídos nas primeiras semanas do recém-chegado é um ótimo preventivo de mancadas que depois afetarão a imagem de forma negativa;
  • Conversar sobre aquelas sutilezas culturais e regras do que pega bem e o que é inaceitável na organização pode parecer perda de tempo e algo subestimado mas pode salvar o novo marinheiro a ser colocado na prancha como o Capitão Gancho com destino às presas dos crocodilos famintos;
  • Acompanhar o processo de aprendizagem e integração diariamente na primeira semana, passando a semanal, mensal e depois conforme a necessidade.

Em outras palavras, o Chefe deve passar a certeza ao novo membro de sua área de trabalho de que ele(a) não é um(a) clandestino(a) e poder ficar tranquilo de que essa atenção dedicada ao processo de boas vindas a bordo acabará por resultar em engajamento e resultados.

O novo tripulante

Marinheiros de primeira viagem em uma nova embarcação precisam estar alertas aos perigos na hora de abordar e em alto mar para que não sofram as náuseas da carreira despencando logo no começo:

  • Querer mostrar serviço para que ninguém tenha dúvida de que você era o(a) melhor candidato(a) que poderia ter passado no processo seletivo, antes de que tenha entendido o que, como e por que fazer ou não fazer pode ser uma iniciativa arriscada;
  • Achar que se deve ter resposta a todos os problemas é um risco complementar ao anterior, pois queremos assegurar a nossos interlocutores de que somos inteligentes e experientes. Entretanto, o que eles mais querem é mostrar o quanto eles sabem mais do que você, pelo menos no contexto da sua empresa. Aqui, você é o ignorante. Assumir essa condição com humildade e perguntar sobre como tudo funciona ali, é a postura mais sábia a adotar em seu primeiro mês, pelo menos;
  • Segundo o princípio Danuza Leão, geralmente não se tem uma segunda chance de causar uma primeira impressão positiva. Por isso, não se engane, quando você acaba de chegar a qualquer grupo novo, você estará todo o tempo na vitrine, até que já faça parte da paisagem do lugar. Portanto, cuide de sua imagem, do que faz, do que diz ou deixa de dizer;
  • Falar demais do emprego anterior é outro pecado comum de calouro corporativo. Nem sempre falamos do último emprego para uma comparação depreciativa em relação ao novo empregador, mas para quem está recebendo o estranho em sua casa, não se quer saber dos próprios podres ou de que há melhores paragens além-mar. Fazer comentários gratuitos sobre como a grama de seu ex era mais verde pode ser arriscado; porém, responder à curiosidade dos colegas, com descrições parcimoniosas e factuais sobre a outra empresa, é uma forma bem mais segura para não se ferir susceptibilidades;
  • Assumir rancores e desilusões alheias, seja sobre pessoas, projetos ou políticas, pode ser uma tentação, mas comprar o peixe do jeito que querem lhe vender, pode fazer com que você acabe com alguma podridão gratuita em seu colo. Espere para ter a sua experiência com aquelas pessoas ou situações para tirar as suas próprias conclusões;
  • Outra tentativa de sedução de sereias do ambiente de trabalho é o convite para fazer parte das famosas panelinhas. Na busca de agradar alguns interlocutores entramos precocemente para o clube dos “contra-o-gerente-do-outro-departamento” e compramos brigas que não são nossas. O risco de escorregar da panela direto para uma frigideira é muito grande. Por isso, manter-se imparcial como um astuto lobo do mar, é a atitude mais segura na viagem que acaba de iniciar.

Ambas as partes podem contribuir para que a carreira de uma pessoa ou a reputação de uma empresa como um bom lugar para se trabalhar esteja marcada para o naufrágio ou para a chegada celebrada ao destino almejado do navio. A tripulação precisa mostrar ao novato onde ficam os botes salva-vidas e ambas as partes devem se esforçar para que nunca precisem ser usados.

Com Vya Estelar

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui